
Dona Helena Teixeira de Souza tem 75 anos, um belo sorriso e muita história para contar. Aos 5, ficou órfã e, aos 13, começou a trabalhar como empregada doméstica em uma casa, sem direito a descanso semanal. Aos 15, arrumou o primeiro namorado, com quem se casou, teve nove filhos, e de quem já é viúva. Aos 71, finalmente, começou a estudar.
Ontem à tarde, recebeu seu primeiro diploma, pela conclusão do primeiro segmento do programa federal de educação de jovens e adultos, o Brasil Alfabetizado. O primeiro segmento equivale à conclusão da 4ª série do ensino médio. "Antes não sabia o nome de um ônibus, como escrever meu nome, nem fazer a ponta em um lápis. Agora, leio tudo o que preciso a até uns pedacinhos de revista e de jornal. Estudar é uma coisa maravilhosa", declara dona Helena, que pretende continuar os estudos. Ela é uma das 132 pessoas com mais de 50 anos que receberam o diploma ontem à tarde, no Teatro Marília, Bairro Santa Efigênia, na Região Hospitalar. A cerimônia contou com os alunos uniformizados com camiseta branca, os oito professores que começaram o trabalho como voluntários e foram contemplados pelo Brasil Alfabetizado, e representantes da PBH. Para a coordenadora do Programa de Educação de Jovens e Adultos em Belo Horizonte (EJA-BH), Valéria Cardoso Guedes, o maior desafio na educação de adultos é que os alunos continuem os estudos.
Criado no segundo semestre de 2003, o Brasil Alfabetizado é realizado anualmente, com duração variável de seis a oito meses e recursos definidos. Em 2005, Belo Horizonte recebeu R$ 110 mil, em quatro parcelas. Só para a educação de pessoas acima de 45 anos, foram 1.700 alunos, atendidos em oito comunidades. O EJA-BH é o braço da PBH que tenta manter os alunos na escola entre um "pacote" do Governo federal e outro, além de desenvolver ações próprias. "Neste ano, já estamos trabalhando com essa continuidade desde janeiro. As aulas das diferentes turmas não terminaram no mesmo prazo, mas queremos manter o contato com esses alunos, para que se sintam estimulados a continuar. Por isso é tão interessante que os projetos sejam complementares", destaca a coordenadora.
Segundo a secretária-adjunta de Educação de Belo Horizonte, Gilka Maria de Morais Oliveira, além da interação entre os programas federal e municipal para a educação, a formatura é importante pelo resgate da cidadania dos formandos. "Ao terem, depois de tanto tempo, acesso à educação, eles se sentem mais integrantes da sociedade, e só isso já seria um ganho excepcional". A avaliação é confirmada pela vivência da professora Margarida Maria Gomes de Araújo, 39 anos, que há dois trabalha com uma turma de idosos no Aglomerado Santa Lúcia, Região Centro-Sul. "É muito gratificante ver o avanço de um senhor que não conseguia segurar um lápis e, hoje, já assina o nome. Muitos falam que só depois de aprender a ler e escrever se sentem gente de verdade. E realmente muda o jeito de olharem nos olhos, de falar. Essa é a parte mais bonita", ressalta a professora, que terminou o segundo grau e atualmente faz curso técnico para Radiologia.
Fonte: Augusto Franco - Hoje em Dia
Imagem Ilustrativa: europa.eu.int
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