
"O prato de comida é apenas um atrativo", afirma Adaílson Bispo do Nascimento, coordenador geral há quinze anos do projeto Sopa Fraterna da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP).
O núcleo de assistência social da instituição está instalado em um prédio modesto, localizado na rua Santo Amaro, 370, região central da capital paulista.
Todos os dias da semana (de segunda a sexta-feira, das 19 às 21h e aos sábados e domingos, das 17h30 às 20h) é feita distribuição gratuita de refeições aos moradores de rua.
Já nas primeiras horas da manhã, as cozinheiras selecionam e higienizam verduras e legumes para depois apurarem o caldo em grandes panelas industriais.
"É muito boa essa sopinha, no frio então, bato uns três pratos", comenta com um sorriso no rosto, o pernambucano Genivaldo Pereira, 42 anos, há dez morando nas ruas de São Paulo.
"Já vivo a um bocado de tempo aqui nessa cidade, mas não me acostumo com o clima gelado daqui". Realmente, para quem vive sob o calor escaldante do nordeste, as baixas temperaturas da capital paulista, durante o outono e inverno, são insuportáveis.
Cerca de 120 reais é a renda obtida por Genivaldo vendendo latinhas de alumínio e papelão para reciclagem. Ele diz, inconformado, "é triste não ter dinheiro para comprar comida, as coisas são muito caras, tenho que vir até a Federação para poder ter pelo menos um prato de sopa".
Não há ajuda governamental, nem mesmo da iniciativa privada, para arcar com as despesas do projeto social. Todo o trabalho desenvolvido no projeto Sopa Fraterna, assim como as demais ações são realizadas através do voluntariado dos membros da FEESP.
"Os freqüentadores desta casa de oração são os maiores colaboradores, porém há um número significativo de pessoas não-espíritas que também ajudam na obtenção de alimentos, isso se deve a idoneidade da FEESP, qualquer pessoa pode conhecer o funcionamento desta ação social", comenta Adaílson.
Os homens são a maioria, cerca de 75% dos atendidos, muitos deles são dependentes químicos ou estão envolvidos com o alcoolismo. "Há um regime disciplinar a ser seguido, não oferecemos somente comida, todos os presentes devem respeitar uns aos outros, e preservar as instalações da instituição".
Por isso, indivíduos que estão sob o efeito de entorpecentes são proibidos de freqüentar o refeitório, mas mesmo assim recebem a sopa, porém, externo da FEESP. Já os moradores de rua que estão habilitados a freqüentar a instituição, são encaminhados para um ambiente limpo e arejado.
Os poucos pertences que possuem são deixados em um guarda-volumes, logo, os assistidos são direcionados a um salão de 210 lugares e participam de uma palestra de cunho espiritual cujo enfoque é a valorização da vida, "temos que alimentar a alma também", acredita Adaílson.
Depois de ouvirem as palavras motivadoras, todos são orientados a lavarem as mãos e se sentarem no refeitório. Nas mesas, já estão dispostos: pratos, colheres, copos com água, e vasinhos de flores que dão ao lugar uma aparência caseira, tudo muito simples.
Então é servida a sopa, composta de legumes e verduras (cerca de sete tipos) e ocasionalmente é acrescentada alguma carne bovina ou de frango.
Indagado pela nossa reportagem sobre a possibilidade do projeto Sopa Fraterna induzir a ociosidade nos moradores de rua, Adaílson respondeu: "Creio que boa parte das pessoas que procuram esta instituição é porque sabem que não encontrarão somente alimento, encontrarão também um amparo social. O Sopa Fraterna é o projeto que envolve o maior número de colaboradores, é a porta de entrada para que os indivíduos conheçam as outras iniciativas da FEESP (orientação sobre sexo e drogas; alfabetização de adultos; aulas de inglês e informática; etc.) enfim, assistencialismo sem engajamento social é altamente maléfico, e é desta forma que há o surgimento de uma legião de seres humanos desmotivados com os elementos da vida cotidiana".
Na atual conjuntura política brasileira, onde o descrédito da população é quase total, nunca duas palavrinhas foram tão desejadas: engajamento social.
Imagem Ilustrativa: www.rt-serradaestrela.pt
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