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  08/06/2006
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SÃO PAULO E EU

Conto de Regina Miranda*

SÃO PAULO E EU Quando saí de minha cidadezinha natal, eu tinha 20 anos. Papai havia morrido recentemente e um dos meus irmãos, o mais bravo dos 13, acabou assumindo uma posição de líder, dominando a todos. Eu não suportava a prepotência dele e tinha sonhos de ir para a cidade grande tentar a sorte. Mamãe me deu força, vendeu a melhor vaca que tinha no pasto e entregou-me o dinheiro, abençoando minha partida num misto de orgulho, tristeza e apreensão.
Era 1939 e eu deixei a pequena Porangaba com lágrimas nos olhos e com aquela "dorzinha"de"barriga" que qualquer ser humano tem ao enfrentar uma situação nova. Depois de muitas e muitas horas de viagem, desembarquei na Capital de São Paulo. Meu Deus! Eu, um caipira cheio de sonhos, estava pisando na grande terra e olhava assustado aquele monte de luzes que brilhava no centro e que eu só conhecia de ouvir falar.
Observei tudo com medo e alegria e entrei com minha malinha preta desbotada, na pensão de quinta categoria, que um conterrâneo havia me indicado. Ela ficava na Rua Barão de Limeira, que nada tem da Barão de Limeira de hoje. Encaminhei-me naquele mundo novo de sofrimentos e aventuras, em meio a prostitutas e outros jovens inexperientes como eu, vindos de várias partes do país.
A cada pedaço de São Paulo que eu conhecia, surgiam novas emoções. Uma cidade rica em expansão, com uma diversidade de raças e culturas que em encantavam.
Prestei exame para entrar na Guarda Civil de São Paulo, polícia de elite, onde eu não sonhava adentrar, mas consegui, talvez pelas insistentes orações de minha mãezinha, que de longe rezava pelo corajoso filho que saíra sozinho da terrinha que ainda era sertão.
São Paulo, nesse tempo, nem se comparava à atual, era calma e tranqüila. O movimento maior era no centro, hoje chamado de "velho", onde tudo acontecia. O Pátio do Colégio, que iniciou a cidade, encantava por sua construção original e pelo museu com objetos de arte sacra, histórias e primeiras vidas da população.
Jockey Club era glamour proibido para mim, mas, como policial, eu conseguia freqüentá-lo à distância, em escassas ocasiões. A Represa de Guarapiranga e o Rio Tietê, eu visitava aos domingos em meus passeios solitários, observando pescadores e barcos em águas limpas. Que saudade!
O Instituto Butantã fazia-me lembrar das enormes cobras que eu matava a pauladas na minha terra. O Pico do Jaraguá eu escalei várias vezes com meus novos colegas, que admiravam meu porte e minha força... E assim fui crescendo, cronológica e emocionalmente e adotei São Paulo como minha, sem poder mais no interior voltar a morar.
Casei-me com uma linda paulistana da gema, filha de um comerciante português do Jardim América, com quem fui morar num "quase sítio", mas que era meu. São Paulo era cheia de novos loteamentos para pessoas como eu, que estavam crescendo com a Capital.
Subi na vida e na profissão, tornei-me grande, vagarosamente, e do caipira daquele tempo, eu só trago vestígios no sotaque e na pureza do coração, assim como São Paulo, essa terra de todos, que apesar do sofrimento não perdeu a beleza, a solidariedade e o amor.
Agora estou aqui sentado, sentindo-me um velho de quase 500 anos, porém, observador e vivo... Serei vivo? Estou em dúvida.
Vejo meus filhos de longe, meu genro e minhas noras, a minha esposa envelhecendo, os meus netos que são frutos das sementes que vingaram em boas colheitas, todos em uma São Paulo com outra cara, de outro tempo, porém com a mesma paisagem da primeira vez em que a vi... A de mãe de sangue de uns e a de mãe adotiva de outros. Acho que foi ela quem me deixou vivo e me perpetuou... Não morri por isso.


* Regina Miranda (re.md@uol.com.br) - é ex-aluna da Fiam e se formou em 1979. É autora do livro (Os causos que o Povo conta) e já publicou dois contos em uma antologia de contos feita com concurso pela UniVAP - Universidade do vale do Paraíba.

Imagem Ilustrativa: www.1voyage.com



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