
Todo jornalismo envolve algum tipo de investigação, a apuração é parte essencial de qualquer matéria. Mas que tipo de produção jornalística merece o título de "investigativa"? Nesta edição da série sobre especialidades do jornalismo, o Comunique-se entrevistou Fernando Rodrigues, José Roberto de Toledo e Claudio Tognolli, profissionais que, de uma forma ou de outra, possuem grande experiência na área.
Tornar público aquilo que é de interesse público e que existam forças econômicas ou políticas contrárias à sua divulgação é uma das definições do tema, defendida por Toledo, vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A entidade foi criada em 2003, depois da morte do repórter da Rede Globo Tim Lopes enquanto realizava uma cobertura nos morros cariocas, e possui profissionais do quilate de Marcelo Beraba e Renata Lo Prete em seus quadros.
Os três princípios fundamentais da Abraji são: contribuir para melhoria técnica de jornalistas e estudantes; promover a troca de experiências entre profissionais em uma categoria que prima pela competição interna, através de fóruns, debates e afins, ambientes que permitam aos colegas compartilhar técnicas sem medo e, finalmente, lutar por uma legislação que garanta o acesso a informações públicas. Esta última bandeira já é realidade em muitos países democráticos e tem o apoio de entidades como a OAB.
Para Fernando Rodrigues, jornalismo investigativo passa necessariamente por um processo mais longo de apuração, com um cuidado e esmero além daquele praticado no dia-a-dia. Sua matéria sobre a compra de votos para ratificar o projeto de reeleição de FHC demorou cinco meses para ficar pronta. Ele explica que boatos sobre a compra de votos eram comuns na capital federal, mas que uma prova concreta era necessária para a realização da matéria. A Folha de S. Paulo mobilizou diversos repórteres atrás desse furo e foi Rodrigues quem encontrou uma fonte disposta a gravar uma conversa entre deputados provando o esquema. O trabalho lhe rendeu um Prêmio Esso.
O papel da fonte contrariada
Rodrigues aponta o axioma "o jornalismo investigativo nasce onde começa o interesse contrariado" como uma verdade. Desta forma, ele lembra que, se a fonte tem interesses contrariados, ela tem interesses e eles muitas vezes são ilegítimos. "Ela pode querer prejudicar alguém, enfiar uma informação falsa. Se você não tem paciência, na primeira tentativa que sua fonte tentar te enganar, você pode descartá-la. A vontade de fazer isso é grande, mas você tem que usar um pouco de psicologia e tanger a fonte para o lado do bom jornalismo", afirma.
Sobre o papel da fonte com interesses divergentes no processo de investigação, Cláudio Tognolli faz coro e aponta que matérias que revelaram grandes escândalos, como Watergate, o caso Pedro Collor ou mesmo o mensalão, começaram dessa forma, de dentro para fora. O repórter e professor universitário afirma que entender a correlação de forças no poder é mais importante do que saber investigar. Metaforizando, Tognolli explica: "ele [o repórter] tem que saber se posicionar. Não é importante correr atrás da bola, mas sim saber onde ela vai cair. Uma hora o vaso vai rachar e água podre vai sair e você tem que estar ali pra colher aquilo".
O jornalista já se infiltrou entre usuários de crack no centro de São Paulo e como membro das torcidas uniformizadas Gaviões da Fiel e Mancha Verde, propositalmente se expôs ao ar condicionado soviético de um hotel cubano para pegar uma doença e testar o sistema de saúde daquele país, foi processado por volta de 100 vezes, recebeu uma proposta de suborno de US$ 10.000 para não publicar uma matéria, entre muitas outras histórias, sempre em nome do interesse público.
Gradações e outras facetas
"Jornalismo investigativo no Brasil tem-se confundido muito com pessoas que copiam boletins de ocorrência, decisão de juiz, de promotor ou procurador", afirma. Tognolli subdivide essa categoria do jornalismo em três faces: investigativo, onde você usa um documento como ponto de partida, não de chegada, e realiza uma investigação mais profunda; evasivo, onde você fica bem posicionado apenas esperando uma fonte sair de dentro e te contar coisas; e de infiltração, "ou gonzo, como queira", onde o profissional é um ator, que se insere na situação para medir pessoalmente o pulso das coisas, sem se revelar jornalista.
José Roberto de Toledo aponta que o jornalismo que recebe o nome de investigativo deve ser olhado com cuidado, afinal "não é papel da imprensa colocar alguém na cadeia". Assim, ele afirma que o bom jornalismo investigativo pode ser realizado em qualquer editoria, de cultura a esportes. "Quando você consegue transpor a barreira das fontes oficiais e oficiosas e realiza uma apuração bem feita, vai realizar de fato o bom jornalismo investigativo. Não precisa falar sobre CPI ou corrupção para ser investigativo", diz.
Fernando Rodrigues concorda com a alegação e se lembra de uma matéria que fez para a editoria de esportes que realizou essa transposição. Estava cobrindo em 1994 o retorno ao Brasil da seleção tetracampeã mundial, que havia vencido a Copa dos EUA. Chegou ao hotel às 07h da manhã e lá presenciou uma equipe de trabalhadores carregando diversas compras de jogadores brasileiros em alguns caminhões. Ele e o fotógrafo passaram a manhã registrando caixas com marcações como "Churrasqueira " Zagallo" e afins. "No dia seguinte, todos os jornais davam manchetes como 'Seleção chega com a taça', apenas a FSP estampava 'Seleção chega carregada'". O episódio acarretou a queda do secretario da Receita Federal, pois os itens desembarcaram sem pagar impostos.
Panorama atual
Toledo aponta que, atualmente, poucos veículos se prestam a investir nesse jornalismo que exige mais tempo e dedicação. Ele destaca os jornais O Globo e Folha de S. Paulo e, em menor medida, as revistas Carta Capital e IstoÉ como representantes atuais do segmento. Apesar disso, o vice-presidente da Abraji se declara excessivamente otimista e crê que o jornalista ainda pode realizar um bom trabalho, mesmo num ambiente econômico e politicamente desfavorável.
"O bacana disso é que, se nós quisermos, somos capazes de fazer diferença, mesmo estando numa redação com poucos recursos. Há meios de se fazer isso. Primeiro precisa ter vontade, depois saber como, ter técnicas, saber como processar a informação. Se um veículo depara como uma informação como essa [de interesse público] ele não é louco de não dar, sua credibilidade depende disso", conclui Toledo.
Fonte: Comunique-se
Imagem Ilustrativa: www.clausthal-zellerfeld.de
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