
Há quem afirme que os contos de fadas são textos adultos, com informações subjetivas e muita malícia disfarçada em doces cachos dourados e chapéus vermelhos. Os estudiosos podem afirmar com propriedade o que nós, reles civis, mortais, desconfiamos desde os primórdios. Os contos, os best-sellers infantis, os desenhos animados são feitos para análise da turma de Letras da USP, mas, certamente, não para crianças, não mesmo.
Começamos com uma garota que está descontraída no jardim e, sem pestanejar, passa pelo buraco de uma fechadura (ou pela fresta da porta) e entra no país das maravilhas... o que ela fazia no jardim? Comia cogumelos? Isso sem considerar que sua trajetória inclui dama de copas, ovo que fuma charuto e um percurso que bem pode corresponder a um movimento de peças em tabuleiro de xadrez.
Ainda mais popular que a protagonista acima, é outra mocinha que, vestindo vermelho, é quase comida por um animal que fala... (um bípede peludo com unhas afiadas que ataca pré-adolescentes. Qualquer semelhança com um pedófilo desprezível é mera coincidência). E, ainda pior que essa loucura, são as doces donzelas que se casam e são felizes para sempre...
Príncipes não têm chulé, mau hálito, nem futebol na quarta-feira. Definitivamente os contos estão fora da realidade. As princesas são sempre belas e felizes e seus príncipes nunca moram em um reino distante (exceto o Shrek). Sendo assim, vamos dispensar o silicone, a escova progressiva, o celular, e-mail e a ponte aérea e nos sentar, belas e formosas, a
espera de um cavalo branco que carrega um príncipe valente exibindo seus dentes
de propaganda de listerine. É, isso parece mesmo pueril.
Seguindo a analogia dos contos X vida real, me intriga profundamente a história de uma senhorita branca como a neve com boca vermelhinha da cor do meu (do seu e de todo o mundo) sangue. Com algumas modificações na história original, a saga desta desafortunada, condenada a cuidar de sete homens de uma vez, seria facilmente a história de algumas pessoas que eu conheço.
Tão pálida como uma folha de papel, a pobre Branca (nome sugestivo para alguém que parece prima do Gasparzinho) é convidada a se retirar de sua casa e deixar toda aquela vida de infância, brincadeiras com plumas, ouro e rubi; e fazer alguma coisa decente em sua vida. Com idade suficiente para suspirar por príncipes pelos cantos, portanto, discernimento para outras coisas também, Branca enfia a viola no saco (no sentido figurado) e se deixa levar para a floresta, com um caçador (a velha história da moita).
Fora dos muros que separavam seu mundo e a vida real, Branca tem de se virar e
Vai morar com uma galera do barulho em uma casa minúscula no meio do nada.
Enquanto seus sete companheiros novos saem para ganhar a vida em um trabalho semi-escravo, a mocinha se diverte lavando, passando, cozinhando e comendo coisas tóxicas para sair da rotina. Já de saco cheio de seus companheiros folgados, ela se deixa enganar por uma senhorinha simpática que tava passando por ali só para lhe dar uma maçã com arsênico.
Ao chegar em casa, seus amigos a encontram envenenada e a levam a um hospital público, onde a estragada Branca fica por pelo menos sete dias. Invadidos pelo remorso, os sete picaretas choram e fazem orações para que ela não morra e continue a lavar, secar e fazer tortas de fruta. Nesse momento, o inesperado acontece. Um príncipe que estava também passando por ali sem querer, a vê e, encantado com tão bela silhueta, se apaixona, a beija, enche seus corações de amor... Eles se casam, fazem belos filhos, se mudam para um belo castelo com toda a família dele e centenas de empregados para administrar. E após diversas cavalgas matinais, pôker às sextas, cricket aos sábados e golfe aos domingos, o Príncipe continua encantado por ter uma bela esposa, muitos amigos, e todo o conforto que o dinheiro pode comprar. Branca tem diversos afazeres, e procura se divertir três dias na semana, procurando aquela senhorinha enrugada que distribui maçãs.
Seus sete amigos, solteiros incorrigíveis, mudaram de emprego, contrataram uma diarista, viajam 2 vezes ao ano para os reinos distantes, ora ao norte ora ao sul do país, e mandam postais à Branca de vez em quando. Alguns deles conheceram umas jovens por aí, mas nada que possa ser considerado um compromisso.
A senhora idosa, que vendia maçãs, montou uma banca no centro comercial do reino, depois um mercado, depois uma mansão com divisão para alimentos, roupas e até utensílios domésticos. Comprou uma carruagem importada, uma casa com vista para o mar e troca de namorado a cada bimestre.
A colega de escola de Branca, que não apareceu por um segundo nesta história, foi estudar em Paris; conheceu especialistas em psicologia, direito e culinária. Escreveu um best-seller sobre uma jovem, seus amigos e as escolhas da vida, urgentes ou ocasionais, que nos fazem felizes ou infelizes agora que é mais justo do que para sempre.
(Renata Prado " aluna de pós-graduação em Comunicação Organizacional do UniFIAMFAAM)
Imagem Ilustrativa: dragonwoman.blogs.sapo.pt
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