
Até pouco tempo atrás, o jovem pesquisador só tinha duas opções para trilhar em sua carreira: seguir no meio acadêmico (e obrigatoriamente dar aulas paralelamente à pesquisa científica, ainda que não gostasse) ou ir para um instituto de pesquisa, como o Butantan, por exemplo. Mas, nos últimos anos, empresas privadas nacionais começaram a investir no desenvolvimento de pesquisas - principalmente nas áreas de Engenharia, Biotecnologia, Computação, e no setor Farmacêutico - e abriu-se aí mais um segmento de mercado, mesmo que ainda tenha menos espaço.
Para optar por um rumo ou outro, é preciso analisar com cuidado as diferenças em termos de salário, de reconhecimento, das dificuldades para realizar a função e da formação exigida e, principalmente, o tipo de perfil que mais se encaixa em cada uma. "Em qualquer meio - seja o acadêmico ou o empresarial - é preciso ter uma formação sólida, uma visão ampla dos assuntos", pondera José Fernandes de Lima, diretor de Programas da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
Em 1904, a Association of American Universities explicitou, pela primeira vez, a visão da comunidade acadêmica a qual o PhD é um grau a ser obtido, em uma disciplina específica, através da pesquisa original, realizada de forma intensiva. Esta ainda é a visão predominante e que foi seguida por todos os países, de tal modo que o título representa o "bilhete de entrada" para a carreira em pesquisa.
Também em qualquer meio, a motivação do cientista é a mesma: "usar o conhecimento científico para gerar um conhecimento novo ou uma informação útil, que leva algo para a sociedade", alerta Paulo Arruda, que coordena o CBMEG (Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética) da Unicamp (Universidade de Campinas) e é diretor científico da Alellyx, empresa brasileira de biotecnologia que atua na pesquisa e no desenvolvimento em Genômica Aplicada de Plantas. Afora o que todos os pesquisadores devem ter em comum, há várias especificidades dependendo do meio onde ele vai atuar.
Abrir o próprio negócio, ser contratado ou parceiro de uma empresa
No Brasil, a carreira de pesquisador foi criada em 1977, quando uma legislação obrigou as universidades a oferecerem cursos de pós-graduação. Desde então, aumentou o número de pós-graduados e, conseqüentemente, mais gente entrou para o mundo da pesquisa científica. Mas, por muito tempo, o pesquisador brasileiro era visto como alguém alienado do mundo real, da sociedade, que ficava restrito ao mundo acadêmico. Por isso, empresários e pesquisadores não se misturavam. Havia preconceito tanto por parte de um quanto de outro. Nas empresas, cientistas eram vistos como seres nada pragmáticos, e distantes do mundo real. Por outro lado, pesquisadores que trabalhavam com empresas eram vistos com maus olhos por seus pares, que os consideravam "medíocres" por trabalharem em prol não do conhecimento científico em si, mas do lucro.
Recentemente, porém, o mercado de trabalho para o pesquisador começou a crescer à medida em que o país viu a necessidade de desenvolver suas próprias pesquisas científicas e as empresas enxergaram que eles podem contribuir, na prática, para seus resultados e dar retorno financeiro. Paralelamente, tem acontecido um movimento de parceria entre empresas e universidades, um enxergando o quanto o outro pode contribuir com seu trabalho. Esse casamento passa cada vez mais a ser visto como benéfico para a sociedade. "Está ficando claro para todos que fazer pesquisa por pesquisa, a ciência pela ciência, não é a forma mais adequada para desenvolvimento tecnológico do país. A união com o setor privado gera emprego, gera produto, enfim, gera riqueza para o Brasil", afirma Marcelo Menossi, chefe do Laboratório de Genoma Funcional do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp (Universidade de Campinas). Há os pesquisadores que preferem ser contratados por uma empresa, os que optam por abrir sua própria empresa, e ainda os que gostam mais da idéia de permanecer na universidade mas, vez ou outra, tocar projetos específicos encomendados por empresas. "Para os pesquisadores que optam optam por serem funcionários de uma empresa, é bom saber, de antemão, que o salário varia muito, e geralmente não é tão maior do que o de um pesquisador na universidade. Geralmente varia entre R$ 5 mil até R$ 8 mil, atualmente", alerta Gildo Magalhães dos Santos Filho, professor do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo), especializado em História da Ciência e da Tecnologia, e que realizou pesquisa onde estudou a função do Biólogo na Sociedade Brasileira, com tipos de biólogos no estado de São Paulo - o pesquisador universitário, o que se torna pesquisador em um Instituto fora da universidade, e os que vão para a empresa privada. Gildo ressalta ainda que quem contrata cientistas no Brasil são laboratórios menores, pois as multinacionais geralmente realizam as pesquisas no exterior. É por isso que alguns pesquisadores brasileiros acabam se mudando, como foi o caso de Everson Nogoceke, chefe do Grupo de Proteômica do Centro Roche de Genômica Médica, na Suíça, onde já realizou trabalhos com metabolismo de cholesterol, diabetes, doenças autoimunes (artrite reumatóide) e doenças do sistema nervoso central, como Alzheimer e depressão.
Como todos os pesquisadores corporativos, Nogoceke começou sua carreira na Universidade e durante muito tempo ficou por lá. "Comecei como pesquisador em 1989 e só fui para a indústria no final de 2001. Iniciei como mestrando na Universidade Federal do Paraná, depois fui estagiário no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos, em seguida ingressei como doutorando na Sociedade de Pesquisa Biotecnológica da Alemanha, e como pós-doutorando na Universidade Rockefeller, também nos Estados Unidos." O que fez Nogoceke ir para a indústria depois de tanto temo no ambiente acadêmico foi sua história de vida e seu perfil. "Na realidade, só ingressei primeiro no meio acadêmico para buscar idéias para um dia entrar em um negócio. Meus pais eram pequenos empresários, cresci neste ambiente dinâmico. E adoro esse dinamismo da indústria, que é a única forma dela sobreviver. A Roche, por exemplo, precisa ter vários projetos em andamento para conseguir lançar um único medicamento no mercado. Apesar de todo avanço científico e tecnológico o processo ainda é muito empírico, com um grande número de tentativas e alguns acertos", relata. "Isto faz com que o pesquisador na indústria trabalhe em vários projetos, com especialistas de várias áreas, o que torna o trabalho muito interessante. Além disto, o trabalho é muito focado, não há espaço para idéias que sejam por demais exploratórias ou não essenciais aos objetivos do projeto. E, por fim, a estrutura de apoio numa empresa de nível mundial como a Roche, seja física (equipamentos e insumos), como de assessoria, é excelente. Dependendo da área, melhor até que nas grandes universidades americanas como Harvard, MIT e Stanford."
Nogoceke via vários problemas quando estava no meio acadêmico. Segundo ele, existia uma grande dificuldade de fazer pesquisa de nível internacional. Faltava equipamento e insumos, o que fazia com que a pesquisa tivesse um progresso lento, enquanto nos exterior as coisas acontecem à jato. "No Brasil, a situação é muito heterogênea entre os estados, universidades e até mesmo laboratórios dentro do mesmo departamento. Alguns grupos brasileiros são referência mundial, apesar das dificuldades."
Negócio próprio - Pesquisa realizada pela Fundação Biominas revelou que, na última década, o número de novas empresas na área de Biotecnologia cresceu 300%, chegando a 304 indústrias. Juntas, elas empregam 28 mil trabalhadores e faturam cerca de R$ 9 bilhões por ano, o que corresponde a 0,9% do PIB brasileiro. Segundo o estudo, 44% das empresas de Biotecnologia no Norte e Nordeste são coordenadas por pesquisadores. No Rio de Janeiro e Minas Gerais, a taxa chega a 30%. Nas regiões Central e de São Paulo, os pesquisadores estão no comando da 80% das empresas. É o caso, por exemplo, da Scylla que, assim como a Alellyx, também é formada por professores da Unicamp e financiada pela Votorantim Ventures, empresa de capital de risco ligada ao Grupo Votorantim. A diferença é que a Scylla atua na área de Bioinformática, com foco na produção de softwares para uso em montagem de seqüências de DNA e análise de proteínas.
Mas montar uma empresa não é para qualquer um. "O pesquisador que vai abrir uma empresa precisa ter, além da visão de cientista, uma visão prática, de administrador. O perfil da pesquisa na indústria é aplicada, com prazos curtos, e métodos que gerem retorno e remunerem o investimento", explica Paulo Arruda, que fundou a Alellyx há quatro anos. Para abrir o próprio negócio, segundo ele, é preciso sentir que é capaz de contribuir com um projeto novo. "Mas, no fundo, o cientista gosta de desafios, e, para mim, montar uma empresa também foi um. A minha idéia era contribuir para o país nessa área de Biotecnologia que, no Brasil, carece de desenvolvimento e de pessoas que tenham coragem de pegar esse desafio", conta. Paulo continua também na universidade. "Acho importante contribuir com a pesquisa acadêmica e dar para os meus alunos a visão empresarial, mostrar as oportunidades boas na iniciativa privada. É importante motivar os jovens a entrar para isso. E ainda tem muito pouco porque o nosso governo não dá incentivo para isso, o peso da tributação é estratosférico, fica difícil convencer empresários a investirem em pesquisa ou cientistas a abrirem empresas."
Ele tem mais liberdade e visibilidade no mercado
Sem dúvida, o cientista da universidade tem mais prestígio e visibilidade - tanto dos seus pares quanto da sociedade - do que o de qualquer outro meio. Tem mais reconhecimento até em termos de salário - que varia de R$ 5 mil a R$ 8 mil. Ele é o que mais publica artigos, participa de congressos, escreve livros, recebe prêmios. E o que tem mais liberdade para explorar o tema que quiser, sem pressões de prazos e resultados - enquanto na indústria uma pesquisa não pode levar mais de dois anos para ser concluída, na universidade pode levar até 15 anos. "A competição entre as universidades não é para ver quem acha algo novo, mas por quem tem docentes com uma formação mais sólida", explica José Fernandes de Lima, diretor de Programas da Capes. Também tem mais flexibilidade de horário. Além disso, o pesquisador acadêmico tem mais facilidade de conseguir verbas de agências de fomento, como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), a Capes. E ainda pode pegar projetos em parceria com as universidades e ter o gostinho de ser pesquisador "corporativo" durante um certo período. As empresas têm achado mais vantajosa essa parceria do que montar sua própria estrutura para fazer pesquisa. Em troca, oferecem bolsas, material para o laboratório, cursos para gratificação.
"É muito recompensador ser professor e pesquisador numa grande universidade", alegra-se Marcelo Menossi, chefe do Laboratório de Genoma Funcional do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp."É o melhor dos mundos. Além de poder dar aulas, tenho total liberdade no ambiente acadêmico, ótimas fontes de financiamento, e posso explorar comercialmente a pesquisa junto à empresas. Hoje até meus alunos são pagos por empresas privadas para fazer pesquisa. De alguma forma funcionamos como braço da empresa no ambiente científico. A entra das empresas nas universidades têm contribuído para que a gente se preocupe mais em patentear nossos trabalhos também, o que os valoriza mais." Mas nem todos pensam como Menossi. Para alguns, é um problema o pesquisador acadêmico ter obrigatoriamente que dar aulas, ou seja, ser também um docente. Nem todos têm o perfil para isso. Além disso, para começar na carreira acadêmica é preciso prestar concurso para docente da graduação. Uma vez dentro, é possível passar a dar aulas para a pós-graduação e aí, sim, tornar-se um pesquisador.
Pesquisador de Instituto
Os institutos de pesquisa brasileiros andam meio perdidos e abandonados. A maioria deles nasceu com a missão de impulsionar a economia agrícola e sanar problemas de saúde pública. Foram importantes instrumentos na industrialização e modernização do país. Nas últimas décadas, porém, sofreram um processo de degradação. É que, ao contrário do que muita gente pensa, institutos de pesquisa não têm, em geral, ligação direta com universidades. Diferentemente delas, não possuem autonomia, são ligados ao governo e dependem dele para verbas e infra-estrutura. Por isso, os pesquisadores têm o salário defasado em relação aos da universidade em cerca de 50%, e os concursos públicos acontecem com pouca freqüência, gerando baixa renovação no quadro de pesquisadores. As agências de fomento dão prioridade para os pesquisadores universitários. Gildo Magalhães dos Santos Filho, do Departamento de História da USP, analisou depoimentos de 32 pesquisadores da área de Biociência, com experiência média de 22 anos de trabalho, em cinco tradicionais institutos paulistas de pesquisa: Butantan, Biológico, da Pesca e de Economia Agrícola. Os entrevistados listaram muitas dificuldades: excessiva burocracia, falta de recursos públicos e verbas para comprar equipamentos, material de pesquisa, serviços de manutenção, material de consumo e serviços prestados para terceiros, perda da qualificação profissional, falta de contratações de técnicos de nível médio.
Mas muitos pesquisadores de institutos mantêm-se na profissão por idealismo, justamente por esse aspecto de engajamento social que faz parte da cultura dos institutos. É o caso de Osvaldo Augusto Santana, pesquisador do Laboratório de Imunoquímicaa e diretor científico do Centro de Toxinologia aplicada do Instituto Butantan. "Vivenciei toda a desestruturação e a defasagem do instituto. Primeiro o governo tentou transformá-los em empresa, mas a maioria de nós foi contra por uma questão filosófica - para ter inovação científica é preciso arriscar, e não cumprir determinada tarefa para um resultado imediatista. Depois essa idéia caiu por terra, mas ainda assim, os institutos continuaram decaindo. Permaneço aqui porque gosto do aspecto social. Na universidade as pesquisas são muito específicas. Aqui temos uma interação maior entre disciplinas, temos mais compromisso com a saúde do que com a educação. Esse é o nosso diferencial com relação às universidades", diz Santana, que também nunca quis embarcar para o setor empresarial. "Para mim, o grande cientista pensa em termos de 30 anos. É visionário, não pensa a curto prazo", explica. Mas ele dá aulas em universidades (pesquisadores de institutos são credenciados para dar aulas e orientar trabalhos), o que é também uma grande satisfação pessoal para ele.
Fonte: Bárbara Semerene - Portal Universia, 31/05/2006
Imagem Ilustrativa: www.genealogiaportuguesa.com
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