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 UniFIAM FAAM DIGITAL

  11/10/2005
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OS BRUXOS DA MINHA VIDA: "A REALIDADE É APENAS UMA OPINIÃO"

Com Timothy Leary, aprendi muita coisa a partir de uma frase que ele gostava muito: a realidade não passa de uma opinião, dizia. Leary achava que viver é surfar o caos: não podemos modificá-lo, mas podemos surfá-lo

OS BRUXOS DA MINHA VIDA: Corria o ano de 1989. Alguém do Denarc, o departamento de narcóticos da Polícia Civil de São Paulo, dava conta que uma invasão de LSD, o ácido lisérgico, tomava a capital paulistana. Informação exclusiva. Batatinha: iríamos pôr na capa de Cotidiano, na Folha de S. Paulo. Teria sido Jotabê Medeiros, o melhor repórter de artes e espetáculos deste país, naqueles tempos na Folha, ou teria sido a Isabela Boscov, hoje na Veja, quem sacou do bolso o telefone do guru de John Lennon, o dr. Timothy Leary --pai da contracultura e o maior avatar da droga. Ainda guardo o número do telefone na casa de Timothy Leary, em Beverly Hills, Los Angeles: ( 310) 276 1923. Conversamos por cinco minutos. O bastante para arrancar-lhe frases de efeito. Aliás, técnica aprendida nos meus anos de Veja. Você constrói a reportagem ao contrário: bola uma tese. Depois sai à cata de gente famosa (às vezes nem tanto) que diga o que cai como uma luva na tua tese. É assim que se pratica o jornalismo semanal: você precisa de frases de efeito para sustentar as teses que vão abastecer a cabeça de quem não gosta de ler livros. Essas reportagens são as bíblias do cidadão mediano. Ele encontra nessas revistas juízos de valor suficientes para ter o que conversar nas rodinhas sem passar feio. Geralmente são teses bipolares: assim João Pedro Stédile, do MST, vira demônio ou Belzebu. E algum desconhecido economista/beletrista de Harvard passa a ser um portento filosófico, um avatar dos novos tempos. Bem, voltando ao Leary: naquele dia contei a ele sobre uma tese em psicanálise que eu desenvolvia, que consistia em catalogar os três mil chavões mais comuns na cabeça do brasileiro. Ficamos amigos: trouxe Leary ao Brasil, no começo dos anos 90, pruma série de palestras. Fui visitá-lo em Beverly Hills, há dez anos, quando ele morria praticamente sozinho com inoperável câncer de próstata. Fiz com ele sua última entrevista. Há três anos a editora Beca, de São Paulo, me pediu um prefácio de sua autobiografia, Flashbacks. Com Leary, aprendi muita coisa a partir de uma frase que ele gostava muito: a realidade não passa de uma opinião, dizia. Leary achava que viver é surfar o caos: não podemos modificá-lo, mas podemos surfá-lo. As teorias filosóficas de Leary têm base no começo do século 20, com o chamado Princípio da Incerteza, em física postulado por Niels Bohr, Max Planck, Werner Hiesemberg. Em grosso resumo: elétrons podem ser ondas ou partículas. Tudo depende do momento em que você o observa. O feixe de luz que nos ajuda a observar o elétron pode mudá-lo de onda para partícula. Ou vice-versa.Ou seja: o fato de observarmos algo já o modifica. Trocando em miúdos: quando você mede a temperatura da água fervente, o termômetro que o faz já altera a temperatura da água, só pelo fato de ele estar frio e você inseri-lo no líquido. Esse princípio da incerteza ou teoria do caos, do início do século 20, torna ainda atual um filósofo tão antigo quanto David Hume, que falava que o que existe são apenas opiniões. É dessa linhagem a obra de Freud. É dessa linhagem a pintura de Picasso (o cubismo postula que não importa como as coisas são, importa é como cada um as vê). É daí que Munch pinta o seu quadro famoso, O Grito: trata da angústia de saber que não há realidade objetiva, contra tudo o que querem aqueles a quem Nelson Rodrigues chamava de "os idiotas da objetividade" (a frase foi feita para o ex-ministro Roberto Campos, o nosso Bob Fields). Tudo isso para dizer de novo a frase predileta de Leary: a realidade é uma opinião. Na desta terça-feira morreu, no hospital Santa Isabel, em São Paulo, o compositor e maestro Hans-Joachim Koellreutter. Era considerado o papa da música dodecafônica no Brasil. Disse o obituário da Folha de S. Paulo "Koellreutter chegou ao Brasil na década de 1930, fugindo do regime nazista na Alemanha. Aportou no Rio de Janeiro e morou na pensão da mãe de Tom Jobim, onde conheceu o maestro brasileiro e se tornou seu professor.A partir de então, Koellreutter começou a viver como professor de música. Trabalhou na Proarte (em São Paulo) e na Universidade Federal da Bahia, onde dirigiu o departamento de música e influenciou diversos dos artistas que viriam a criar o movimento tropicalista. Em entrevista à Folha, o compositor resumiu sua filosofia como professor: "Aprendo com o aluno o que ensinar. São três preceitos: 1) não há valores absolutos, só relativos; 2) não há coisa errada em arte; o importante é inventar o novo; 3) não acredite em nada que o professor disser, em nada que você ler e em nada que você pensar; pergunte sempre o porquê." Nos anos 90 fui levado a Koellreutter pelo jornalista Ubiratan Muarrek. Depois de ter estudado música por mais de 25 anos, resolvi ser aluno do bruxo da avenida São Luís. Logo na primeira visita, Koellreutter disparou. "Você tem de me trazer semana que vem uma música feita de uma nota só. Escolha o instrumento que quiser. Se eu gostar do que ouvir, você será meu aluno". Na época, dispunha de 53 guitarras, hoje convertidas num multi-rack que as dispensa. Peguei a mais esquisita: uma Danalectro Coral Sitar Vinnie Bell. É uma guitarra de 19 cordas: seis as normais, e outras 13 que tocam paralelamente, em simpatia, sem serem percutidas, como uma cítara ou tambora hindus. A guitarra foi muito usada pelo Steve Howe, do Yes, pelo Andy Summers, do Police (que a emprega na faixa Wrapped Around your Finger). De uns cinco anos para cá, o Lulu Santos tem usado muito a Vinnie Bell algumas vezes bem, mas a maioria torturando o instrumento. Afinei as 19 cordas na nota "si". Ou seja: dispunha de 19 cordas para executar algo livre, de uma nota só, como fora pedido pelo maestro Koellreutter. Na outra semana ele ouviu e gostou. Estava admitido como aluno. O ritual que se seguiu foi Koellreutter ter pedido que assinasse algo que eu gostasse muito em sua parede da sala. Escrevi uma frase do Adorno, em alemão, pra agradar o bruxo "Das moderne ist wirklich unmodern geworden"( O moderno ficou fora de moda). A primeira coisa que o maestro pediu foi que eu lesse muito filosofia das ciências, sobretudo Niels Bohr. Referia que achava um "absurdo" que um único centro tonal dominasse toda uma música. Defendia a teoria do caos, vindicava que vários centros tonais fossem mudados numa faixa. Achava que cada um, assim, poderia se projetar na música de uma maneira cada vez mais caleidoscópica. Ou seja: a música convidaria o ouvinte a emitir várias opiniões, sensações diversas. Mas jamais uma única. Afinal Schopenhauer já falava no século 18 que a música é a mais sublime das artes. E Walter Pater, pai verdadeiro da psicodelia já havia disparado em Londres, em 1871: " Todas as formas de arte aspiram à música,que não é outra coisa além de forma pura". Leary não ouviu Koellreutter. O maestro não leu Leary. Mas ambos os bruxos de minha vida cantavam no mesmo diapasão, a saber: a realidade é apenas uma opinião... Fonte: Claudio Tognolli " AOL Imagem Ilustrativa: www.consciencia.net/ opiniao.html



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