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 UniFIAM FAAM DIGITAL

  01/09/2005
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O MELHOR ESTÁ POR VIR

Chico Buarque disse essa semana que o país estava com a alma doente porque Lula está morrendo. Lula está morrendo porque, à sua maneira, vem fazendo extemporaneamente o que Chico Buarque fazia há 30 anos: fala por metáforas e parábolas. É o presidente parabólico

O MELHOR ESTÁ POR VIRUm dos grandes arcanos presentes desde a conversa de botequim até algumas claques bem localizadas, seja nas universidades ou nas colunas dos opinadores de plantão nos jornais, tem sido aquela indagação que mexe com a alma do brasileiro e arranca frases de um moribundo Chico Buarque: Lula estará morto para as próximas eleições? O próprio Chico Buarque era alguém que supúnhamos politicamente morto. O tio Freud sempre disse que a arte nasce da repressão. E foi por isso, justamente, que Chico Buarque morreu bastante. Acabou a ditadura, acabou a repressão, portanto foi para o lixo a necessidade de se usar a metáfora, a metonímia, para se driblar a censura.

Chico Buarque morreu um pouco e muito mais porque não havia mais necessidade de se rimar do jeito ladino, oblíquo, lateral, enviesado, para poder driblar a sempre pré-coerente inteligência dos homens de quepe. Hoje a molecada gosta de rimar palavrão. Estive numa festa da revista "Isto É Gente", essa semana, em que Tati Quebra Barraco cantava sexo animal, disparava esgoto sexual em rimas mais diretas que um soco no maxilar. Foi o máximo: "would I be people", gente que quer ser e ainda não é, modelos, mulheres de quatrocentes talheres sacudiam suas bochechas polvilhadas de blush Victoria Secret cantando em voz alta as letras da funkeira.


Buarque disse essa semana que o país estava com a alma doente porque Lula está morrendo. Lula está morrendo porque, à sua maneira, vem fazendo extemporaneamente o que Chico Buarque fazia há 30 anos: fala por metáforas e parábolas. É o presidente parabólico. Na semana passada, no auge da crise, Lula não atacou de frente, como qualquer estadista mediano faria. Entrou em cadeia de TV falando com ministros. Não teve coragem nem disposição moral de atacar a fera de frente. Fazia isso nos palanques, nos anos 80, porque tinha todo o peonato trabalhista, o lumpesinato, ao seu lado. Agora, do outro lado do balcão, perdeu os guts, los cojones.


Também pouco lhe orientaram que fazer uso da ironia, nesses momentos, pode dar resultado. Um dos maiores ladrões do hemisfério horizontal latino católico, o presidente mexicano Álvaro Obregon (governou o México entre 1920 e 1924 pelo PRI), quando pego com a mão na massa, foi ao povo e disparou: "Eu roubo menos". Detalhe: Obregón só tinha o toquinho de um dos braços.


Também muito tem se falado sobre o suposto fim do PT. Não é o PT que está para acabar, é a noção de partido político em si que tende a acabar. Por quê? Porque, com a Internet, as pessoas podem fazer múltiplas escolhas. As ONGs representam o fim do partido político porque oferecem uma paleta de cores inimaginada antes, que atende aos pedidos mais particulares e pontilhismos mais caprichosos. Não é para menos que, em letras de rap, cada vez mais se ouve o pessoal empregar o vocábulo my neighborhood, mi barrio: o território agora é o bem localizado, é o bairro, a favela, a vizinhança. A política agora tende a ser também atomizada: interesses particularíssimos, presentes nos estatutos das ONGs, estão ocupando o lugar da grand politique ofertada pelos grandes partidos políticos.

Aliás, um dos problemas dos EUA hoje menos comentados é o das milícias: há no país pelo menos 400 milícias armadas. O cidadão tem um sonho, mistura esse sonho com pedaços da bíblia, com pedaços da Constituição. Monta uma ONG armada, arrebanha fiéis, cria um território. É para esse tipo de pontilhismo politico que as massas vão escoando, lentamente, mas com recorrência diária. Há sete anos, numa visita ao Museu das Milícias, em Washington, este repórter pôde ver como essas ideologias frankensteinianas se instalam na cabeça do cidadão comum: prometendo soluções de problemas localizados, como tentam fazer, com sucesso e cidadania, as geniais rádios populares e piratas.

O fim de Lula e do PT não representa necessariamente a volta dos sistemas políticos sempre suspeitos vocalizados pela venda de indulgências pelos tubarões, lesmas brancas e vampiros do PSDB e do PFL: vai representar a criação de uma demanda por novos partidos que hoje se agitam, molecularmente, nos bairros, nas periferias. O país está prenhe de uma mudança para melhor, ainda não visível. Ou, como disse o velho e bom Adorno há uns 60 anos: o estatuto do novo é o estatuto do historicamente inevitável.

Por Claudio Tognolli, professor do UniFIAMFAAM

Imagem ilustrativa: photos1.blogger.com/.../ 640/chico_buarque250.jpg




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