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Desde: 06/12/2001      Publicadas: 4182      Atualização: 26/09/2007

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  20/09/2007
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O GUARDIÃO DA FLORESTA

Amor à natureza fez Marcio Mônaco se tornar um agrônomo

O GUARDIÃO DA FLORESTA
* Gabriel Ábalos

O jardim de sua casa era um mundo de aventuras e descobertas. Pequenos insetos, animais escondidos, cantos escurecidos por plantas, silêncio por sobre os arbustos. As bananeiras eram uma fortaleza, palco de batalhas e fugas. Um gato em decomposição, além de assustador pala aparência de ossos "de verdade", foi objeto de estudo... de longe, é claro!
Mais que as brincadeiras com amigos, as bicicletas e os jogos, o jardim foi cenário da sua grande paixão infantil: ser gnomo. Mas um fato ocorrido na comunidade de crianças da vila em que morava o fez recuar como aventureiro. As crianças acharam uma pomba morta e resolveram brincar de médicos veterinários, com faquinhas de plástico que vinham nas embalagens de bolo Pullman. Pequenos cirurgiões atuando sem o menor escrúpulo ou técnica... Cenas que não agradaram. Não conseguiu mais brincar. Os livros se tornaram seus melhores amigos, e as viagens do pensamento, muito ativas e imaginativas, solitárias.
Mas as flores, as bananeiras, as samambaias, as abelhas (que dentro de caixinhas de fósforo se transformavam em rádios portáteis!), as férias em sítio da tia-avó, as goiabeiras, mangueiras, tudo fez parte permanente da formação da infância e do início da adolescência.
Os estudos eram a grande prioridade. O orgulho velado do pai, nunca exteriorizado, era um trunfo inesquecível. Seus olhares serenos e sérios, riscados por sorrisos expressivos, eram buscados com obsessão, e a escola, aprendeu, seu lugar de conquistas. Seu pai sabia disso. Ele havia sido um grande aluno, e agora era um "engenheiro". Uma palavra mágica, distante, enorme em seu significado. Não havia como decepcioná-lo.
A imagem sempre presente da mãe o confortava, mas a severidade doce da educação é que trazia uma linha de ação e de meta. Correções de conduta, respeito, altivez de pensamentos.
O esporte, natação, em que era muito bom. E nadava com os grandes! Era um peixinho sem conseguir parar, até o pulmão mandar por falta de ar. Mas os estudos eram a prioridade.
Ciências e biologia. Paixões acadêmicas de extrema influência na formação de caráter e de perspectiva de vida. Vida que começa a parecer triste, pois a timidez se faz um grande obstáculo. Notas em bom desempenho nos boletins, e nenhum desempenho satisfatório nas paixões com meninas, aliás, cada tentativa era uma montanha a ser escalada com suor e desespero. Nesse cenário, os livros são novamente a saída para viagens e conquistas. As belezas da natureza agora são expostas de maneiras diferentes, com aspectos técnicos, com paixão de um professor de biologia, com observação mais acurada nas viagens, com sentidos mais apurados.

A iniciação

Os aromas se tornam perceptíveis, as cores mais nítidas, a coragem chega ainda tímida, mas já é possível conversar com potenciais paqueras, e a visão do futuro vai se tornando menos turva.
Uma propaganda de televisão, com uma menina perguntando ao irmão: "é verdade que você vai ser agônomo?". Que é agrônomo? Um amigo de infância, lembra, tinha dito ser alguém que sabe tudo! Ah! É isso que eu quero ser...
Descobre então que seu avô, grande ídolo perdido, queria ter sido, e queria que seu pai tivesse sido. Muitas coincidências, muita determinação de destino, muita vontade de cumprir sonhos ou formar uma espécie de resgate de uma tradição familiar que não existiu.
Vestibular, muito estudo, muita expectativa da família, que espera muito. Alegria, viagem, morar fora, cabelos cortados, festa. Mundo novo, descobertas, responsabilidades, gerenciamento de verbas e de conceitos, orgulho de galgar uma etapa, vontade de aprender.
A vontade de trabalhar com animais, em especial bovinos, mas com grande paixão por cavalos, logo se esvaece, pois os motivos das criações se fazem presentes, e os motivos da vida acadêmica as transformam num novo horizonte: alimentar pessoas. Estuda, então, grãos e cereais com grande determinação, em estágio muito pesado e exigente dentro do Campus. Desbrava e recupera extensa várzea abandonada, em conjunto com colegas, e desenvolve estudos de solo, hidrologia, hidráulica, topografia, irrigação. Desenvolve ainda uma outra grande paixão, para toda a vida, que é o contato com o povo simples do campo. Povo verdadeiro, de coração puro, de pele rugosa, de olhar profundo e fundo, de poucas e sinceras palavras. Chora de pensar que esses heróis diários são anônimos que sabem o que é viver.
Estuda, então, moças bonitas, e de bonitas convicções. Namoro é coisa séria, respeitosa e fiel. Cinco anos com uma amada, que torna o restante das coisas sem muito foco, exceto pela formação. Até depois da formatura. Até sua morte prematura.
A dependência do pai era um grande fardo, que carregava com muito lastro de consciência excedente. A suavidade do respaldo dos pais, entretanto, não conseguia minorar essa preocupação. Tentativas de trabalho à noite não davam certo, pois os estudos eram prioridade. Mas o tempo passou e os abraços dos pais na formatura lavaram a alma com carinho e força.
Agora seria com ele. Já teria que sobreviver por conta própria, era finalmente um engenheiro agrônomo. Palavras não mais distantes, não mais tão grandes. Agora eram suas também. Mas todo o conhecimento acumulado não era suplementado com treinamento em desenvoltura, ou esperteza de mercado, e a palavra desemprego se tornou uma carga sobressalente e incômoda.
Amigos e família ajudam de forma incrível quando se percebe um problema ou uma discrepância. Um trabalho maravilhoso surge então, para topografia e aerofotogrametria, para o metrô na cidade. Era bom nessa matéria, e aprendeu, então, a desenvoltura que faltava.
Tal foi a experiência que foi trabalhar com uma nova paixão, o paisagismo. Abriu uma empresa com um sócio que muito conhecia de plantas ornamentais e árvores. Avidez por bons trabalhos e seriedade nas ações se tornaram padrões virginianos de nascimento! Grandes planos e projetos.
Um matadouro de uma cidade de interior, não podia ser diferente, iria se tornar um grande viveiro de plantas. Um contrato de manutenção, reforma e construção de praças, com educação ambiental e escolas de jardinagem estava sendo formatado e quase finalizado. Era o auge dos sonhos!
Mas um novo fato surge e quebra, como a cirurgia do pássaro na infância, seus anseios e alegrias. Um plano de governo confisca verbas de cadernetas de poupança. Ora, não há problema, pois isso não tinha, apenas sonhos na poupança. Também os contratos não seriam afetados, pois as prefeituras tinham que continuar sobrevivendo. Manchetes nos jornais são trágicas para sua perspectiva de vida: "prefeito mantinha verba municipal em conta particular para rendimentos".

O Retorno

Tudo em vão? Projetos roubados, prefeito cassado e caçado (ele virou fugitivo), planos acabados, firma sem contratos e eventuais clientes sem verbas.
Conflitos de identidade apareceram cedo, e a venda da empresa foi um ápice de sentimento de perda e desconsolo. Os estudos voltaram a ser a grande prioridade mais uma vez. Um concurso público para sua carreira. Mais de dois mil inscritos para vinte vagas. Tem muito de paisagismo e sua honra estava afetada.
Uma viagem à Europa se tornou um bálsamo. Estudar inglês por dois meses, e mochilar em hotéis por mais um foi um grande presente. O curso pago por seu grande ídolo: seu pai. Volta mais cedo: passou no concurso.
A prefeitura de uma grande cidade não parece muito o lugar de um agrônomo, em especial de um que se sente bem entre os trabalhadores de enxada, no silêncio das plantações, na poeira de terra e nas cantorias de viola, e mais ainda na maior cidade do país. Uma das maiores do mundo.
Mas tem que pagar para ver, e sua boa colocação o encaixa perto de cãs, num bairro muito arborizado, com periferia pobre e com mansões que parecem fortalezas ou resorts. Desafio por necessitar de ajuda, para entender o desconhecido, obscuro e sinuoso mundo político de um país que não tem histórico sólido de cultura social. Desafio por compreender, com muita angústia, que a natureza é uma sobrevivente na cidade grande, cheia de conforto. Desafio por ter que aprender argumentações para mostrar às pessoas que precisamos das árvores, pois isso não é de conhecimento geral!
As más condições de trabalho não podem ser impedimentos para realização de bons trabalhos, premissa que não deixará de lado. Tampouco a convivência com os conhecidos como funcionários públicos, agora com sentido pejorativo, quando antes seria honra. Tem muita gente competente nos setores públicos. Os concursos são sérios e difíceis, mas laranjas estragadas cheiram primeiro, de longe, e então, toda a cesta deve estar estragada.
Novas atividades, pessoas de diversos níveis de conhecimento para convencer e discutir, simplicidade de trabalhadores braçais entristecidos, gama de responsabilidades que procura estender. Encontra-se, então, numa atividade que percebe ser de grande importância para a natureza, sua grande paixão, que quer preservar, recuperar e até estender até onde seu "poder" permita.
As árvores passam a ser suas protegidas. Fala por elas, defende-as com grande afinco e carinho, trata-as, não permite que sejam desrespeitadas, mas assiste a muitos crimes e agressões diárias. Sua sina de defensor da natureza cria apelidos aparentemente sarcásticos, como eco-chato, verdinho, e por aí vai, mas que aos seus olhos trazem orgulho de ter uma bandeira respeitável para se hastear.
Anos se passam nesse lecionar diário de pessoas que pensam ter boa qualidade de vida com o cimento, o fio a luminária, o muro, mas não percebem a árvore que tenta sobreviver com aperto, sufoco, agressão e mutilação. Cada pessoa que saía com outra visão, pensando na beleza e necessidade das plantas, após difíceis e acaloradas discussões, era uma vitória diária, e um alento para a avidez de proteção ambiental.
Mas também as praças novas, os plantios em locais de difícil suporte, os projetos, os planos ambientais, as novas leis de preservação, foram coroações inesquecíveis de um trabalho respeitado. E parece que a natureza entendeu, e permitiu que morasse, com sua família, num pequeno paraíso protegido e cercado par muita árvores.
Casou-se com uma professora de educação infantil, que conheceu numa dança de sonho, como um lindo conto de fadas que não tem fim, e a natureza se fez e se faz sempre presente com a pureza de um amor encontrado e perpetuado em passos, em filhos angelicais, e que fecha um ciclo de vida embasado na solidez da terra.
Seu trabalho culmina hoje em planejamento ambiental para essa cidade, com o respeito das instâncias acadêmicas, políticas, técnicas e populares. Desenvolve legislação e programas de recuperação definitiva para a rede hídrica e os fundos de vale, com envolvimento comunitário e dos três setores da sociedade, para que a sustentabilidade seja um fato, mesmo no ambiente urbano degradado, e não apenas em teorias e desejos.
Desenvolvimento sustentável é acreditar que nossas vidas têm sentido, e que devemos atentar para os sinais que a natureza nos mostra de forma tão clara, mas que teimamos, como seres humanos inquilinos deste planeta, em sustentar que nossos ideais de "bem estar" são protótipos e estereótipos que nós, como seres inteligentes criamos. Sustentar uma vida com determinação de se viver e fazer apenas o bem, no estrito senso da palavra, é um histórico que todos deveriam pensar.

" Gabriel Brigagão Ábalos (gabrielbrigagao@superig.com.br), 22 anos, é estudante de Comunicação Social da UniFIAMFAAM e fez estágio na Editora Abril.

*** Texto produzido para a disciplina de Jornalismo Literário, sob orientação da Profª Drª Monica Martinez




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