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Desde: 06/12/2001      Publicadas: 4183      Atualização: 26/09/2007

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  18/04/2007
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MEIO DO CAMINHO

Crônica do Prof. Edgard

MEIO DO CAMINHO Só a oferta era atraente, o boteco, plantado no interior do Mercadão da Lapa, nem tanto. Uma placa anunciava: "experimente os deliciosos bolinhos de bacalhau do..." e não é que esqueci o nome? Calma, o boteco continua lá e qualquer hora destas coloco esta dúvida em pratos limpos. Estava acompanhado da minha mulher e não hesitamos um minuto: pedimos uma porção de porções que era o melhor que se poderia fazer naquela hora. Enquanto eu olhava para os céus agradecendo o favor da iguaria, percebi a presença de uma pessoa que, de alguma forma me lembrava alguém que havia conhecido, sei lá quando, sei lá onde, sei lá porque. Depois de comer acertava as contas no caixa. Imediatamente o scanner da minha memória começou a vasculhar. Eu pedindo pressa para não dar vexame. Minha memória é fogo. Às vezes lembro o nome e não lembro a cara. Outras vezes lembro a cara e não lembro o nome. Outras, como aconteceu dessa vez, não lembrava nem da cara e nem do nome. No entanto, alguma coisa me dizia que eu conhecia aquele baixinho. Sim, era um baixinho. Quem seria? De onde eu o conhecia? Das ruas? Dos bares? Dos jogos do Corinthians? De alguma reportagem que fiz? De alguma escola que freqüentei? Algum amigo da infância? Minha infância anda tão longe que já é difícil resgata-la. As imagens às vezes aparecem desbotadas e amareladas. Não, o baixinho não esteve na minha infância. Pelo menos nunca foi fotografado. Nem esteve nas minhas escolas. Muito menos em minhas reportagens pois prezo tanto os personagens que vi e ouvi que tenho todos gravados em modernos cds para não ser traído pela falta de espaço na cabeça. Tenho uma caixa deles na memória. Bem, mas e o baixinho? Pensei em abordá-lo antes que saísse do boteco. Me contive. Imaginem eu chegar nele e dizer: "De onde é que eu te conheço, mesmo?" No mínimo me mandaria à merda. Mastigo os bolinhos e penso numa estratégia de abordagem. Qual? Talvez dizer: "Meu, você saltou da minha memória e agora está diante de mim. Diga logo, quem é você?" Não, não, seria uma estupidez. Já estava incomodado com a situação sem solução quando o baixinho simplesmente virou as costas e sumiu deixando o bolinho de bacalhau entalado na minha garganta. Não tenho respostas até agora. O máximo que consegui foi lembrar da história que aconteceu com o Lima, maravilhoso amigo, outrora relações públicas da antiga Light & Power, que antecedeu a Eletropaulo. Fantástico Lima, humaníssimo Lima, saudosa figura. A Light funcionava naquele prédio na esquina da Xavier de Toledo com a Praça Ramos de Azevedo. Hoje é um shopping center. O Mappin ficava em frente. Lembro que o Lima morava do lado de lá do viaduto do Chá. Todos os dias, às mesmas horas atravessava o tal viaduto. Que, por sinal, era um mar de gente, indo e vindo todas as horas do dia. Vai e volta, volta e vai. Um dia, quando tomava um chá ou um suco num boteco que funcionava ao lado do Mappin, ainda na Xavier de Toledo, deu de cara com alguém que parecia conhecido. Educadíssimo, cumprimentou respeitosamente e o sujeito respondeu ao cumprimento. A memória do Lima também o traía e ele nem de longe suspeitava quem era a pessoa que acabava de cumprimentar. Sorriu amarelo. O outro respondeu com o mesmo sorriso. Intrigado e respeitoso, o Lima perguntou: "E aí?" Meio sem graça o outro respondeu: "Graças a Deus vai tudo bem!" "Quem será esse cara?", o Lima se perguntava. E como já tinha ido longe demais para voltar, deu seqüência ao papo sem sentido. "Calor, hein?" O outro respondeu: "Já esteve pior...". "É, já esteve pior", consertou o Lima, se maldizendo por não lembrar do sujeito. Já constrangido, não resistiu e demonstrou o seu desconforto: "Me perdoe, mas eu conheço você de onde mesmo?" Ao que o outro respondeu: "Para falar a verdade, eu também conheço você, só não sei de onde...". Tomaram outro chá e outros sucos e ficaram se conferindo. Só chegaram a uma conclusão: conheciam-se do viaduto. Todos os dias, às mesmas horas, eles se cruzavam no viaduto do Chá, um indo, outro voltando porque, sempre que um ia, o outro voltava, destinos parecidos, porém diversos. O vai e vem do viaduto firmou uma grande amizade. De minha parte continuo com o maldito baixinho do boteco na minha cabeça. Se voltar a encontrar com ele vou perguntar correndo: "Você também costumava andar pelo viaduto do Chá?". Não, não vai dar muito certo. Ele vai saber que eu passava muito pouco pelo viaduto do Chá. Prof. Edgard de Oliveira Barros



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