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Desde: 06/12/2001      Publicadas: 4182      Atualização: 26/09/2007

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 UniFIAM FAAM DIGITAL

  24/08/2005
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GUAIACA BONITA, COMPANHEIRO!

Crônica do Edgard...

GUAIACA BONITA, COMPANHEIRO!Quanto mais a moda muda, mais eu me convenço de que estou fora de moda. Menos mal que vou tentando me ajeitar, me adaptar, me enquadrar para não ser chamado de outsider. Outsider sim, pois a bendita moda exige que se use palavras da língua inglesa. Fica in e demonstra uma certa erudição. Tento me acertar.

Diabo são essas roupas justas, essas calças agarradas ao corpo, com bolsos inacessíveis. Não me adaptei. Sem ter onde colocar cigarros, isqueiro, carteira, me sinto nu.

E, assim, tudo ia mal até que encontrei um amigo, colega professor de jornalismo, super atualizado com o andar da carruagem, usando uma bela capanga, uma guaiaca, como dizem e usam os gaúchos. Uma bolsinha que se amarra ao corpo, como se fosse cinta e se guarda de um tudo. Invejei o amigo tecendo loas infindáveis ao artefato colorido que ele levava na
cintura. Uma praticidade invejável. É disso que eu preciso, pensei.

No que externava a minha emoção verdadeira por ter descoberto a pólvora em matéria de quebra-galho para calças justas, me lembrei de piada antiga que falava exatamente de capangas ou guaiacas.

Não resisti e contei pro amigo. Era a história de um gauchão desses bem convictos, bem machão mesmo, que levava uma guaiaca maravilhosa, toda concebida em couro da melhor qualidade. Com todos os compartimentos e recursos. Pois o gauchão entrou num bar para, no dizer antigo, "matar o bicho", tomar uma daquelas que derrubou o guarda.

Caiu bem a marvada. Tanto que o gauchão pediu outra. E mais outra. E mais outra. Pediu todas. Depois de tantas, saiu pedindo um minuto de silêncio em homenagem ao maravilhoso criador dessa coisa fantástica chamada água-ardente. Era noite já, e o gauchão enveredou por caminhos nunca dantes percorridos. Esqueceu até do cavalo, que havia se aninhado numa moita de capim gordura, sua preferência.

O gauchão não viu por onde andava e acabou tropeçando na sua desventura. Caiu e ficou, sem nada mais ver, até que o dia clareou.

Os primeiros raios de sol foram testemunhas da sua ressaca. Ainda atordoado, passou a mão conferindo o corpo, percebendo que corpo era mesmo a única coisa que ele tinha sobre a terra. Tinha sido roubado. Completamente. Nem a linda guaiaca possuía mais. Alucinou.

Sem ter para onde ir, voltou para o bar onde estivera na noite passada. No que entrou, deu de cara com um sujeito alto, forte, musculoso, que, entre outras coisas, ostentava aquela que tinha sido a sua linda guaiaca. Enfureceu. Foi direto ao ponto perguntando ao grandão: "De quem é essa guaiaca?" O grandão não titubeou para responder: "Pois é, tchê, ontem a noite, encontrei um bêbado, caído, roubei tudo e, no final, ainda me aproveitei dele, sexualmente, até o fim. Sabe como, né?"

O gauchão não perdeu a linha e proclamou em alto e bom som para que todos os presentes ouvissem: "Bonita guaiaca, companheiro!".

Voltando ao meu lado, não passou muito tempo o já citado amigo e colega professor, emocionado com a história que ouvira, me presenteou com a mesma guaiaca que usava e que elogios havia recebido. Repito, era uma guaiaca muito bonita, completa, cheia de compartimentos. Apesar da piada, me comovi.

A primeira vez que usei a tal capanga, presenteada, com tanto carinho,
percebi um certo calafrio no corpo. Coloquei a carteira em um dos compartimentos, o telefone celular em outro, a chave do carro em outro, uns trocados em moedas, em um outro ainda e busquei ficar feliz, imaginando que, finalmente estivesse na moda. Tinha uma guaiaca que me atendia plenamente.

Sai, andei, me exibi feito um modelo. Com a guaica na cintura desfilei e me sentia "in" como a moda exige.

Voltando para casa me penitenciei: "falei tão mal da guaiaca e estou usando guaiaca...".

Nisso, o telefone celular, que ainda estava na capanga, cismou de chamar. Num gesto instintivo levei as mãos aos bolsos procurando pelo aparelho, até lembrar que ele estava na guaiaca. E tocava. E chamava. E gritava. Eu procurava desesperado, abrindo todas as comportas da guaiaca. Compartimento por compartimento. Eram tantos e mais tantos
dificultando a procura. E o telefone chamava, e eu procurava. Não estico o assunto. Demorei um século para achar o celular que, coitado, cansado, já sem voz e já sem som, havia se calado.

Pior, a chamada não havia sido registrada. Azar de quem ligou, pensei.

Azar mesmo. Tempos depois encontrei com um amigo que me censurou dizendo que eu era uma besta. Não gosto de desmentir as pessoas, em todo o caso, perguntei porquê eu era besta e ele respondeu com a crueldade possível: "Dia destes eu liguei pra dizer que aquela viagem pra Paris, tudo pago, uma semana num puta hotel, tinha sido liberada e que a gente ia junto com uma porção de colegas jornalistas. Era a viagem inaugural daquele avião, o MD 3111, lembra? Todo mundo foi, você não atendeu o telefone e dançou".

Lembrei da capanga que havia escondido o meu celular. Lembrei do gauchão que havia perdido a guaiaca e tantas coisas mais. Me senti dolorido. Guaiaca? Capanga? Estou "out" da moda, não quero mais isso não.


  Autor:   Autor: Prof. Edgard Barros


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