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Desde: 06/12/2001      Publicadas: 4183      Atualização: 26/09/2007

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  08/08/2007
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FAZER NADA TAMBÉM É ARTE

Crônica do Prof. Edgard

FAZER NADA TAMBÉM É ARTE
Depois de trabalhar feito um Mouro a vida inteira, eu preciso arranjar um jeito de não fazer nada. Por sinal, eu gostaria de saber que tanto os Mouros faziam para entrarem na história como sujeitos tão esforçados assim.

Alguém, aqui ao meu lado, lembra que os Mouros carregavam pedras para construir cidades. Eu não sou Mouro, não quero construir cidades e, honestamente, quero que os Mouros se danem. Aliás, pelo que dizem, devem ter se danado um bocado. Até porque, deveriam ter reclamado na época. Durmientibus num sucurrit jus*, diziam os legisladores romanos. Assim, quando eu digo não fazer nada digo não fazer nada. Nada mesmo. Ficar sentado olhando o mundo. E sem reclamar.

Quero ficar deitado, sem nada fazer e nem pensar em nada. Nadica absoluta. No máximo caminhar até a para a praia e pedir uma. Com limão. Isso, se alguém fizer e trazer. Só bebo.

Vai ser um esforço levantar o copo. Cansativo. Preciso inventar uma maneira de beber sem levantar o copo. Aprimoro a idéia: ficar ouvindo o barulho das ondas. Descobrir um jeito desse barulho ser aumentado e se espalhar, eletrônicamente urbe et orbe**.

Não, nada de ficar inventando. Inventar também dá trabalho para quem não quer fazer nada. Penso em pegar um avião e ir para o Nordeste. Comer carne de sol na manteiga lá no Picui, em Maceió. A carne tem que muito macia. Mastigar também dá trabalho para quem não quer fazer nada.

Talvez ir para a Barra de São Miguel, ainda nas Alagoas, ficar vendo a maré subir e descer, cobrindo e descobrindo arrecifes. Recolho os flaps, isso também dá trabalho.

Nessa crise aérea o trabalho é ficar esperando o avião sair. Como não tenho um Aerolula disponível não vou. Não quero ficar tomando cafezinho no aeroporto. Não vou fazer nada disso. Quero ficar vendo os colibris beijando e sugando as flores. Esses são uns coitados, batendo asas a mil, gastando energias. Só de dó deles também não quero. Afinal, não quero fazer nada e, de preferência, quero ver todo mundo igual, fazendo nada também.

Talvez me candidate a deputado, senador. Viver de vender vacas, como um deles fez. Esse sim, soube fazer nada. Tem outros que ainda tiveram e têm o trabalho de ir buscar acertos e comissões.

Reconheço e condeno, fazer nada assim é feio, não quero ser político. Quero fazer nada às minhas próprias custas e não às custas do sofrimento do povo. Que, por sinal, ingrato, também não faz nada para mudar a vida.

Poderia continuar dando aulas, coisa que adoro fazer. Um grande amigo me ensinou que dar aulas é devolver o favor que me prestaram quando eu precisava de ensinamentos. O bom professor é um mero passador de experiências. O duro é que para dar aulas é preciso que haja o interesse dos alunos. Para minha dor, boa parte deles já não quer nada. De novo repenso: a gente já vive num país onde não se precisa fazer nada, a natureza fez tudo por nós. Tudo nasce sozinho. Não tem terremoto, não tem maremoto, não tem vulcões e nem senões.

Viram como estou certo? Até por natureza não é preciso fazer nada por aqui. Nada por nada, fico torcendo pelo Corinthians, que também não tem feito nada ultimamente. Porém, em todo o caso, é boa idéia ficar fazendo nada vendo futebol. Num esforço supremo vou gravar todas as partidas para ficar vendo, revendo, até me cansar de não fazer nada nem ver nada.

Tenho tanto nada para fazer que até me esqueci de que poderia ficar plantando flores. Rosas, dálias, orquídeas, margaridas. O que demandaria, porém, algum trabalho para quem não quer fazer nada.

Esqueçam, não vou fazer nada disso.
Nem sei, por sinal, porque resolvi desabafar num texto sobre o não fazer nada. Devem existir alternativas melhores para que um indivíduo da minha espécie possa desenvolver, sem fazer nada, para não fazer absolutamente nada. Assim é que decidi e ponto final. A partir de agora vou iniciar a minha caminhada em busca do fazer nada ideal. Se encontrar uma boa idéia, aviso.

* - Durmientibus num sucurrit jus é expressão latina querendo dizer, em tradução liberal, "o Direito não socorre aos que dormem".
** - Urbe et orbe é expressão Latina traduzida, mais ou menos como "na cidade e no mundo". Mesmo sem fazer nada tô bem de Latim, hein?

Edgard de Oliveira Barros



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