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  06/04/2005
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É PRECISO APRENDER COM AS BOAS REPORTAGENS

Pela primeira vez na história da diplomacia brasileira, alguém da ilustre casa foi condenado por práticas de corrupção

É PRECISO APRENDER COM AS BOAS REPORTAGENSCarlos Chaparro

O XIS DA QUESTÃO " Em favor dos leitores e da credibilidade do jornalismo, as grandes reportagens deveriam conter sempre algum tipo de auto-explicação, para que o público pudesse avaliar o rigor da investigação e as intenções das matérias. Por isso, uma sugestão a Rubens Valente: depois que os fazeres e as emoções desta sua reportagem passarem, e pensando principalmente na formação dos futuros jornalistas, escreva textos e faça palestras com a revelação pedagógica dos bastidores da matéria.

1. A importância do "como se faz"
Um dos livros que há anos recomendo a estudantes e profissionais é Conexão Cabo Frio, do Gilberto Dimenstein. O título do livro é o mesmo dado à notável reportagem com a qual Dimenstein denunciou e desmontou um bando de engravatados larápios que faziam parte dos quadros do Itamaraty - e no Itamaraty, "diplomaticamente", roubavam em larga escala.

Pela primeira vez na história da diplomacia brasileira, alguém da ilustre casa foi condenado por práticas de corrupção, graças a uma reportagem conduzida com acuidade jornalística e rigoroso senso de responsabilidade. Acuidade e rigor que incluíram a decisão de só se iniciar a divulgação depois de tudo devidamente investigado e aferido.

Ao sentir o gigantismo do peixe que lhe caíra na rede, e para que nada fosse em vão, Dimenstein colocou o Ministério Público a par do que estava sendo descoberto. A partir de certa fase da investigação jornalística, repórter e procuradores passaram a trabalhar em paralelo, solidariamente e sob prudente sigilo. Assim, enquanto avançava a reportagem, definia-se também a investigação oficial da Procuradoria. E isso representava, para o repórter, a certeza de que, às revelações jornalísticas, se sucederiam as decorrências policiais e jurídicas que o caso justificava.

Como se sabe, não deu outra: sem casaca e sem gravata, os bandidos foram parar na cadeia.

***

Em tempos de crise no jornalismo, dois motivos me levam a citar Conexão Cabo Frio. E em primeiro lugar, a convicção de que o livro de Gilberto Dimenstein deveria ser de leitura obrigatória em todos os cursos de jornalismo. Contrariando as expectativas de quem o compra, o livro não transcreve a reportagem, mas nos revela como ela foi feita. E se constitui magnífica aula de técnicas do bem fazer jornalismo. E vai bem além, pois acaba sendo um tratado prático e conceitual das razões éticas que devem orientar o agir jornalístico.

2. Estética da Veracidade
A segunda razão está relacionada com a série de reportagens de Rubens Valente, na Folha de S. Paulo, sobre as maracutaias do sr. Romero Jucá. Estou convencido de que todos nós aprenderíamos muito, em especial os estudantes de jornalismo e os jornalistas em início de carreira, se fosse possível revelar como esta reportagem foi feita, desde o surgimento da pauta aos caminhos percorridos para o levantamento de documentos e testemunhos - passando pelo rigor na seleção de fontes; o intenso trabalho de convencimento para obter falas e documentos (incluindo aí os relatórios técnicos do Banco da Amazônia); os trabalhos de confrontação e depuração, sobre a montanha de informações e declarações reunidas; a caracterização e elucidação das contradições; a paciência, a lucidez e a honestidade com que teve de ser feita a leitura dos muitos documentos reunidos, em cruzamentos com outros dados, para a comprovação das fraudes cometidas; o esforço físico exigido pelas buscas em cartórios e pelas milhas percorridas no interior do Amazonas (sabe-se lá por que meios de transporte), até a confirmação da inexistência das fazendas dadas como garantia do empréstimo obtido junto ao Banco da Amazônia.

Uma boa síntese da qualidade do trabalho realizado pode ser captada na reportagem de duas páginas que nesta sexta-feira (01-04-05) deu continuidade à série - leia aqui, somente para assinantes do UOL. O texto ostensivamente despido de brilhos literários, para que aflorassem a força e a articulação lógica das informações, revela que no acabamento jornalístico foram adotados critérios impostos pelo dever da veracidade.

Veracidade é o traço estético fundamental da linguagem jornalística. Na hora de escrever, Rubens Valente soube entender e valorizar isso.

3. Desafio pedagógico
Não conheço Rubens Valente. E quis saber um pouco dele, para avaliar melhor a sua reportagem. Por telefone, vasculhei informações em redações (inclusive as da Folha) de Brasília e São Paulo. Conversei com gente que o conhece. Mas também encontrei gente que não sabia de quem se tratava. Chequei mailings de duas boas assessorias de imprensa, e em nenhum deles constava o nome de Rubens Valente. Pude deduzir que, talvez por ser um repórter prioritariamente ligado às suas reportagens, ele não entra nessas listagens recheados de nomes notáveis.

Mas esta reportagem, na qual desvenda uma escabrosa história de desonestidade no uso de dinheiros públicos, não é um acaso na carreira Rubens Valente. Já fez várias outras do mesmo padrão, algumas delas premiadas. Pelo seu trabalho de repórter, ganhou, por exemplo, 1998, o Prêmio Marçal de Souza de Direitos Humanos do Mato Grosso do Sul, Estado onde nasceu e se formou em Jornalismo. Em reportagem partilhada com o colega Eduardo Scolese, conquistou, em 2002 o Grande Prêmio Folha de Jornalismo. Um ano antes, quando trabalhava em O Globo, ganhou o Prêmio Esso de Reportagem, em trabalho também assinado por Chico Otávio.

Já agora, um segredinho que em alguém me revelou: nesta reportagem sobre os desatinos do sr. Romero Jucá, Rubens Valente teve, em certo momento, a ajuda valiosa da colega Marta Salomon, que se recusou a acrescentar a sua assinatura ao texto para não dividir méritos que, na sua avaliação, pertenciam a Rubens. Aos amigos e colegas que lhe elogiam o trabalho, o próprio Rubens faz questão de sempre lembrar a contribuição de Marta.

***

Voltando aos motivos que me trouxeram o livro Conexão Cabo Frio à lembrança e ao texto, deixo aqui uma sugestão a Rubens Valente: depois que os fazeres e as emoções desta sua reportagem passarem, e pensando principalmente na formação dos futuros jornalistas que enchem faculdades por este país além, escreva textos e faça palestras com a revelação pedagógica dos bastidores da matéria.

Aliás, na minha opinião, e em favor dos leitores e da credibilidade do jornalismo, as grandes reportagens deveriam conter sempre algum tipo de auto-explicação, para que o público pudesse avaliar o rigor da investigação e as intenções das matérias.

  Autor:   Fonte: Comunique-se


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