
"A prática pedagógica não se recebe e nem se doa, ela é construção que se faz na reflexão da prática e na prática de reflexão, garantindo ao professor uma competncia pessoal, que lhe permita planejar situações eficazes de aprendizagem e acreditar que ensinar ainda é possível." (Lydia Bechara). Partimos da perspectiva teórica de que o texto é um processo e como tal compreende determinadas etapas. Assim, quando o professor pede que o aluno escreva, é necessário que fique claro que essa etapa é a oportunidade para o aluno expressar-se, pôr suas idéias no papel, assumir a autoria de seu próprio dizer. Essa etapa jamais deve sobrepor-se à da correção e muito menos constituir-se no porquê dessa produção.
Agora, se o motivo reside na mera aferição da capacidade de escrever sem cometer deslizes gramaticais, o objetivo a que o professor se propôs poderá ser alcançado se este for afastar o aluno da escrita. Com efeito, precisamos urgentemente desatrelar a aula de redação da correção gramatical. O aluno precisa, sim, escrever, mas não escrever com a finalidade de mostrar conhecimento gramatical. Se assim fosse, não teríamos livros de Paulo Coelho... (Confessamos: é uma pontinha de inveja, já que ele vende barbaridade). A correção gramatical é importante no momento posterior ao da produção, quando o produtor vai enxergar seu texto com os olhos do leitor, à procura de erros ortográficos, sintáticos, frases mal construídas, períodos desconexos, etc. Mas de nada vale no momento em que o autor está criando seu texto, uma vez que o pensamento criador é alinear.
A aula de redação precisa assumir a criatividade como sua baliza. O aluno precisa escrever, sem que para isso seja constantemente tolhido por regras gramaticais que, paradoxalmente, servem para travar o fluxo de escrita. Para tanto, a postura do professor em face da redação precisa ser outra. Permitam-nos contar esta historinha: "- A partir de hoje, em todas as aulas, vocês me tragam um pequeno texto livre. Uma história qualquer que tenha acontecido no dia-a-dia. Dez linhas. Não é necessário mais que dez linhas. Entenderam? A classe inteira ficou encarando dona Furquim como se ela fosse a mulher-maravilha. Será que dona Furquim estava caçoando da gente? - Dez linhas do quê, professora?
Dona Furquim estava acabando de apanhar os livros de cima da mesa. Virou-se e repetiu, como se estivesse dizendo algo que nós devíamos saber de cor.
- Vamos contar por escrito as coisas que acontecem todos os dias. O cotidiano de cada um. Mesmo que pareça um fato sem importância. Façam de conta que é uma brincadeira. Em casa, vocês arranjam um tempinho, passam para o papel um pouco da vida. Tanta coisa, não é mesmo? Sempre acontece tanta coisa na vida da gente! Assim foi o primeiro dia de aula de dona Furquim. Ela nunca fez questão das coisas muito na ponta da língua.
Gostava de dizer que é bom aprender para a vida. Como se aprende a andar. Foi por causa de dona Furquim que desse dia em diante passei a rabiscar coisas que aconteciam em minha vida. Enchi um caderno de redação e depois outro caderno de redação. Isto que estou contando aqui não passa de folhas soltas desses cadernos. No passar a limpo, procurei emendar os erros que dona Furquim havia corrigido. Emendei os erros, mas não modifiquei os fatos." (Lourenço Diaféria, O Empinador de Estrelas. São Paulo: Escrita, 1980).
Por Sérgio Simka: Revista Ensino Superior
Imagem Ilustrativa: assisbrasil.org
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